Rali

Retrospectiva 2018: Varela e Gugelmin levam Brasil a novo título no Dakar. No WRC, Ogier é hexa mundial

2018 também foi de feitos históricos no rali. Carlos Sainz voltou a triunfar no Dakar, que viu mantida a hegemonia da KTM nas motos e um novo título para o Brasil nos UTVs. No WRC, Sébastien Ogier faturou o hexa, enquanto a Toyota festejou o título entre as equipes

Warm Up / JULIANA TESSER, de São Paulo / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Não é exagero dizer que a temporada 2018 no rali de forma global foi histórica. Nas principais competições off-road ao redor do mundo, Sébastien Ogier ampliou para seis o cartel de títulos no WRC, mas com um sufoco jamais visto, tendo ao seu lado Thierry Neuville e Ott Tänak como grandes protagonistas em um ano que marcou o título para a Toyota entre as equipes, além de uma surpreendente aliança entre Sébastien Loeb e a Hyundai. 
 
No Rali Dakar, Carlos Sainz pai voltou ao topo do maior rali do mundo no fim do ciclo vitorioso da Peugeot, enquanto a KTM ampliou para 17 seu rol de títulos consecutivos entre as motos. E o Brasil voltou a fazer bonito demais para faturar sua segunda conquista consecutiva, desta vez com Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin.
 
Por aqui, a disputa do Rally dos Sertões, o maior rali do Brasil, teve sua 26ª edição em um percurso tradicional, indo de Goiânia a Fortaleza. Christian Baumgart e Beco Andreotti faturaram o inédito tricampeonato nos Carros, com Tunico Maciel conquistando o título nas motos. Enrico Amarante e Brendo Rezende levaram a taça na cada vez mais crescente categoria dos UTVs, enquanto Wescley Dutra foi o campeão nos quadriciclos. No fim do ano, a maior prova do rali brasileiro anunciou mudanças importantes para ficar ainda mais forte no futuro.
Matthias Walkner manteve a incrível hegemonia da KTM nas motos no Dakar (Flavien Duhamel/Red Bull Content Pool)
 
Três protagonistas, dinastia mantida e um retorno inesperado ao WRC
 
Como de costume, a temporada 2018 do Mundial de Rali começou em janeiro com a disputa do Rali de Monte Carlo, no gelado principado. Em condições extremas, Sébastien Ogier e Julien Ingrassia formaram a dupla a ser batida, novamente a bordo do Ford Fiesta WRC da equipe privada britânica M-Sport. No entanto, pela primeira vez desde que iniciou a dinastia em 2013, ainda pela Volkswagen, a tripulação francesa enfrentou dificuldades reais para confirmar o título.
 
A grande luta de Ogier em 2018 se deve ao grande trabalho feito pelas montadoras Hyundai e Toyota, que investiram pesado para lutar pelo título da temporada. Thierry Neuville seguiu como o grande nome da fábrica sul-coreana, enquanto a tradicionalíssima Toyota, no seu segundo ano desde que voltou ao WRC, teve Jari-Latvala em segundo plano em segundo plano ao optar, acertadamente, pela contratação de Ott Tänak.
 
A chave para a conquista de Ogier e Ingrassia ao longo da temporada foi nas provas iniciais do campeonato, com três vitórias nas quatro primeiras etapas de 2018: Monte Carlo, México e França. Só que a Hyundai tinha Neuville ‘com a faca nos dentes’ e disposto a lutar como nunca para finalmente conquistar um título depois de ‘bater na trave’ nas duas últimas temporadas. 
Sebastien Ogier e Julien Ingrassia levaram o hexa do Mundial de Rali (Foto: Red Bull Content Pool)
E o belga, que conta com Nicolas Gilsoul como navegador, teve sua jornada marcada pela regularidade, venceu três das sete corridas da primeira metade do campeonato: Suécia, Portugal e Itália. Assim, Neuville fechou junho com 27 pontos de vantagem para Ogier (149 x 122) e Tänak em terceiro, mas com 77 tentos, 72 a menos em relação a Thierry.
 
Foi no início do segundo semestre que o jogo começou a virar em favor de Ogier. Mas a grande estrela neste período foi Ott Tänak, com o estoniano emendando uma série de vitórias importantes na Finlândia, Alemanha e Turquia. E teve potencial para vencer as outras provas restantes, não fosse por incidentes sofridos no percurso.
 
No rali seguinte, em Gales, Seb voltou ao topo do pódio com direito a uma exibição contundente, enquanto Neuville terminou apenas na quinta posição. Aí o placar apontava 189 para Neuville, enquanto Ogier encostava de vez com 182.
Ott Tänak viveu um grande ano com a Toyota no Mundial de Rali (Foto: WRC)
A penúltima etapa do campeonato, o Rali da Catalunha, representou a virada no campeonato em favor de Ogier. Mas a grande estrela foi Sébastien Loeb, que fez uma apresentação esporádica e garantiu mais uma vitória na carreira, fazendo a Citroën brilhar na esteira de um ano apagadíssimo. Ogier foi o segundo e, com Neuville apenas em quarto, o placar para a última prova do campeonato apontou 204 em favor do francês, três a mais em relação ao piloto da Hyundai.
 
No último rali do ano, Ogier e Ingrassia sequer precisaram do resultado para confirmar o hexacampeonato. Neuville e Tänak abandonaram e decretaram o título em favor da dupla da M-Sport. Um histórico sexto mundial consecutivo, ratificando a grande dinastia francesa no WRC.
 
Os números mostram o quanto a temporada foi bastante apertada: Tänak e Ogier venceram quatro provas, com Neuville faturando três triunfos; foram seis pódios para cada um, enquanto o estoniano da Toyota foi o maior vencedor de especiais, 87 em nove etapas, contra 64 de Ogier e 34 de Neuville. 
 
Para 2019, a expectativa é por uma disputa ainda mais acirrada no WRC. Primeiro porque a nova temporada vai marcar a volta de Ogier à Citroën para o que o piloto define como seu último contrato no Mundial. Neuville segue na Hyundai, que causou a grande surpresa no universo do rali no fim do ano ao anunciar um acordo de dois anos com o lendário Sébastien Loeb, que mostrou o quanto ainda está em forma. O eneacampeão vai fazer seis etapas em 2019. E Tänak vai seguir com a Toyota, que promete lutar de vez pelo título no ano que vem.
 
 
Chuva tumultua 40ª edição, mas Rali Dakar tem edição memorável em 2018
 
Mais tradicional prova do calendário off-road do planeta, a edição 2018 do Rali Dakar não foi das mais fáceis. O clima se mostrou um desafio extra e forçou a organização a cancelar especiais. Ainda assim, algumas coisas seguem inalteradas, como, por exemplo, o domínio da KTM, que alcançou sua 17ª vitória consecutiva na disputa entre as motos.
 
Dominante no Dakar, a marca austríaca apareceu mais uma vez com seu time estrelado: Sam Sunderland, campeão vigente; Toby Price, vencedor de 2016; Matthias Walkner, campeão de 2015 do Mundial de Rali Cross-Country; Laia Sanz, multicampeã de enduro e Trial; e Antoine Meo, tetracampeão do Mundial de Enduro.
 
Com tantos talentos à disposição, a marca austríaca tinha todas as armas necessárias para manter seu domínio, mas não sem lutar. Rival dos últimos anos, a Honda mais uma vez apareceu forte, mas, de novo, foi assombrada pelo azar. Líder do time, Joan Barreda se aproximou dos líderes após o dia de descanso, mas lesionou os ligamentos do joelho em uma queda e foi forçado a abandonar com quatro dias para o fim da prova.
Adrien Van Beveren ficou bem perto de quebrar a dinastia da KTM no Dakar (Foto: Yamaha)
A surpresa, porém, ficou por conta da Yamaha, que caminhava para o título com Adrien van Beveren. Mas tudo mudou na décima especial, disputada entre Salta e Belén. Com apenas 3 km para o fim de uma especial de 372 km, o francês caiu e acabou abandonado por conta das lesões sofridas. Walkner, então, assumiu o comando da disputa e seguiu firme para vencer o rali com 16min53s de vantagem para Benavides. Price ficou em terceiro, seguido por Meo. Vencedor do rali passado, Sunderland abandonou após lesão ainda no quarto estágio.
 
Na disputa entre os carros, a Peugeot fechou a passagem pelo Rali Dakar com um novo triunfo. Depois das conquistas de Stéphane Peterhansel, a montadora fundada por Jean-Pierre e Jean-Frédéric Peugeot voltou a erguer a taça, mas desta vez com o experiente Carlos Sainz.
 
Estrela do automobilismo mundial, Sébastien Loeb entrou no Dakar encarando 2018 como sua última chance de vencer o rali, mas o sonho ir por água abaixo ainda no quinto estágio, quando precisou abandonar por conta de uma lesão nas costas do navegador Daniel Elena.
Lucas Cruz e Carlos Sainz fecham ciclo da Peugeot no Dakar com vitória (Flavien Duhamel/Red Bull Content Pool)
Tradicional rival, Nasser Al-Attiyah perdeu muito tempo no quarto estágio, assim como Cyril Despres. Na sétima especial, foi a vez de Peterhansel perder tempo. 
 
Assim, o pai de Carlos Sainz Jr., que chegou até a falar em aposentadoria em 2017, abriu uma ampla vantagem e completou a prova como bicampeão com 43min40s de vantagem para Al-Attiyah.
 
Na disputa entre os UTVs, o Brasil é que segue reinando. Depois da vitória de Leandro Torres e Lorival Roldan em 2017, a prova deste ano teve Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin como campeões. A dupla brasileira apostou na consistência desde o início da disputa e, com vitórias em cinco etapas, completou o Dakar com 60 minutos de vantagem para a dupla formada por Patrice Garrouste e Steven Griener.
 
Nos quadriciclos, Ignacio Casale teve uma performance dominante. Sem Sergei Kariakin e Rafal Sonik ‘em campo’, já que os dois abandonaram ainda na primeira metade da disputa, o agora bicampeão do Dakar venceu com folga, completando o rali com 1h38min de vantagem para Nicolas Cavigliasso, o vice-campeão.
Gustavo Gugelmin e Reinaldo Varela festejam o título do Dakar nos UTVs (Foto: Duda Bairros/photosdakar.com)
No confronto dos caminhões, vitória para Eduard Nikolaev. Campeão vigente, Nikolaev encarou uma disputa apertada até a reta final do rali, mas viu Federico Villagra sofrer um problema mecânico no penúltimo estágio e abandonar a competição.
 
Ao lado de Evgenii Iakovlev e Vladimir Rybakov, o piloto da Kamaz-Master ganhou uma larga vantagem e acabou por encerrar o Dakar com 3h57min17 de folga para o trio formado por Siarhei Viazovich, Pavel Haranin e Andrei Zhyhulin, alcançando o tricampeonato na prova ― e o segundo título seguido.
 
 
Ano especial para Rally dos Sertões e Mitsubishi Cup
 
As principais competições do rali nacional não poderiam ficar fora da Retrospectiva 2018. O Rally dos Sertões, o maior e mais tradicional rali cross-country do país aconteceu entre 19 e 25 de agosto, partindo de Goiânia e com passagens pelas goianas Formosa e Posse, as baianas Luís Eduardo Magalhães e Barra, São Raimundo Nonato, no Piauí, Juazeiro do Norte e Fortaleza, capital do Ceará.
 
Christian Baumgart e Beco Andreotti faturaram o inédito tricampeonato nos Carros, com Tunico Maciel conquistando o título nas motos. Enrico Amarante e Brendo Rezende levaram a taça na cada vez mais crescente categoria dos UTVs, enquanto Wescley Dutra foi o campeão nos quadriciclos.
 
Já 2019 promete ser um ano de grandes novidades. A começar pelo ponto de partida da edição do ano que vem, entre 25 de agosto e 1º de setembro, e terá como cenário Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. A promessa é que o próximo roteiro volte a trilhar o desafiador Jalapão. Outra novidade é que o Sertões vai ser parte do Campeonato Sul-Americano de Rali Cross Country na categoria Carros, o que deve atrair a participação de vários competidores estrangeiros, tornando o nível técnico ainda mais alto.
A Mitsubishi Cup teve mais um grande ano em sua trajetória em 2018 (Foto: Ricardo Leizer)
Em termos de gestão, o Sertões passou por uma mudança significativa: Joaquim Monteiro, que foi CEO da Empresa Olímpica dos Jogos do Rio 2016, e Julio Capua, sócio-fundador da XP Investimentos, são os novos sócios da empresa, com Joaquim assumindo como novo CEO do Sertões. Marcos Moraes, responsável por todo o profissionalismo de uma das maiores provas off-road do mundo, será o responsável pela parte técnica.
 
A expectativa da nova gestão é que a edição de 2022, que vai marcar os 30 anos de Sertões, seja a mais desafiadora da história, com a prova partindo de Chuí, no extremo sul do Brasil, para desbravar os mais variados tipos de terreno rumo ao destino final.
 
A Mitsubishi Cup também teve um ano muito importante na sua história no rali brasileiro. A principal competição monomarca do cross-country nacional realizou sete etapas ao longo de 2018 para coroar seus campeões. 
 
Gunter Hilkemann e Beco Andreotti conquistaram o título da classe L200 Triton Sport RS. Na L200 Triton ER Master, a taça ficou com os imbatíveis Diener e Gunnar Dums. Flavio Pereira de Oliveira e Vinícius Luís Marcon foram os campeões da ASX RS, enquanto Elcio Bardeli Junior e Ivo Mayer ficaram na frente na classe ASX RS Master. Por fim, o título da LS200 Triton ER ficou nas mãos de Marcelo Fiúza e da experiente navegadora Joseane Koerich.