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Área destinada à construção de autódromo em Deodoro não é região de campo minado, atesta relatório

Um relatório recebido pelo GRANDE PRÊMIO com relação à varredura e detecção de artefatos explosivos no Campo de Camboatá, local cedido pelo Exército para a construção do Autódromo de Deodoro, mostra algumas novidades com relação ao trabalho lá realizado. Os documentos mostram, por exemplo, que a limpeza da área terminou em 2015 e que os artefatos que lá estavam eram vestígio de um antigo acidente. E que a área jamais foi um campo minado
Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
 Novo autódromo? (Foto: Carlos Magno/Prefeitura do Rio de Janeiro)

Desde que o Autódromo de Jacarepaguá foi demolido definitivamente, em 2012, então para dar lugar a uma série de instalações olímpicas da Rio 2016, uma grande questão se põe para o esporte a motor do Rio de Janeiro: quando haverá uma nova casa? O prometido substituto, o Autódromo de Deodoro, ainda não existe mesmo seis anos depois da queda da antiga praça. De acordo com documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO, o terreno do Campo do Camboatá está limpo desde 2015.
 
O terreno foi cedido oficialmente pelo Exército ainda em 2012 como parte de um projeto que envolvia o Ministério do Esporte, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, além da Confederação Brasileira de Automobilismo e do Governo do Estado. Logo foi avaliado que o terreno em questão precisava passar por um processo de descontaminação. Em 2012, o jornal 'O Globo' publicou havia a possibilidade de existência de minas terrestres e explosivos no solo, já que o local havia sido usado como campo de treinamento para manuseio de granadas e explosivos em geral.
 
A partir daí começou um longo processo de descontaminação que empurrou qualquer projeto viável de construção de um autódromo para anos no futuro. A varredura dos cerca de 2 milhões de m² do Campo do Camboatá passou a ser organizada pelo Comando Militar do Leste por meio do Batalhão de Engenharia de Combate de Santa Cruz.
 
Um pouco antes dos trabalhos envolvendo o autódromo, um caso chamou a atenção no Campo do Camboatá. Durante treinamento do curso de sargentos do Exército, em junho de 2012, o calor de uma fogueira feita pelos treinados causou a explosão de um artefato que estava próximo. Uma pessoa morreu e outras dez ficaram feridas - três em estado grave.
 
O Ministério do Esporte, responsável por financiar as obras do autódromo, suspendeu o projeto em novembro de 2014, após sugestão do Ministério Público. Na época, houve uma exigência de um estudo do impacto ambiental das obras no local. O Ministério se defendeu, disse que estava "preparando o atendimento das condicionantes ambientais que haviam sido fixadas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para emissão da licença [das obras]". E que, apesar disso, a justiça suspendeu a licença e embargou o projeto.
O relatório recebido pelo GRANDE PRÊMIO (Foto: Reprodução/Grande Prêmio)

"O Inea determinou ao Ministério que providenciasse Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental. O Ministério, embora convicto de ter cumprido todos os requisitos legais e ter esclarecido todos os questionamentos da promotoria, acatou a decisão judicial e iniciou a fase dos estudos, com o propósito de fazê-lo no menor período de tempo possível e na esperança de que a liminar de janeiro de 2013 fosse derrubada", disse o Ministério do Esporte à época.

O começo de 2015 apresentou ainda um novo obstáculo público para a liberação das obras. Em 12 de fevereiro, pouco antes do Carnaval daquele ano, o chão tremeu em pelo menos seis bairros do Subúrbio do Rio de Janeiro: Deodoro, Marechal Hermes, Ricardo de Albuquerque, Guadalupe, Vila Militar e Anchieta. Barulho, tremores e uma vibração que foi capaz de estourar vidraças e quebrar telhados. Tudo por conta de mais uma explosão no Camboatá que o Comando Militar do Leste admitiu ter causa um choque acima do esperado.
 
Sempre foi sabido que grande parte dos artefatos espalhados na localidade eram frutos de uma explosão-mãe - e não de treinamentos com minas terrestres. A explosão - história que o GP contou detalhadamente em 2015 - aconteceu em 1958. O Rio de Janeiro ainda era a capital federal quando o Campo de Camboatá abrigava a Central de Munição do Exército, que contava com dez paióis e 60 depósitos de armamentos bélicos. Um incêndio começou a mandar parte deles pelos ares. O céu ficou vermelho por boa parte da cidade e o som era de infinitos tiros e um bombardeio interminável.
 
Tamanha a violência das explosões que milhares de artefatos lançados aos ares caíram sobre o Campo de Camboatá e ficaram enterrados sob ou na superfície do local, ainda representando perigo mesmo décadas depois. Explosivos perdidos pelo local configurava, sim, um perigo notável, mas jamais se tratou de algo com a complexidade de um campo minado.
 
Os documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO - e que são assinados pelo coronel Evaldo Ferreira Baptista, chefe do Estado-Maior da 1ª Região Militar, e por Fernando Meira Junior, Subsecretário de Projetos Estratégicos da cidade do Rio de Janeiro - mostram que são esses artefatos, frutos da explosão de 1958, os que representavam perigo no solo do Camboatá e explica como foi o processo de descontaminação que surpreende ao afirmar que o trabalho foi concluído em maio de 2015.
O desenho do projeto do novo autódromo do Rio (Foto: Divulgação)

No fim das contas, segundo os dados oficiais, o trabalho de detecção e varredura terminou encontrando 110.483 estilhaços diversos; 25.809 cartuchos e/ou projeteis de armamento leve; 706 granadas de mão inertes; 11.789 granadas ou partes de granadas de diversos calibres e armas; 18.000 fragmentos variados de metal. 
 
"Todos os artefatos explosivos encontrados, inertes ou não, foram destruídos. O Exército deu como encerrada a fase de detecção, varredura e destruição de artefatos de explosivos da área de instrução de Camboatá em 15 de maio de 2015", afirma o documento, que ainda assegura que o fim do trabalho de buscas e destruição dos artefatos explosivos foi informado pelo Departamento de Engenharia e Construção ao Secretário-Executivo do Ministério do Esporte em 30 de outubro de 2015.
 
O documento ainda nega que tenha lidado com armas químicas no local, outro boato que chegou a ser veiculado com relação ao espaço em Deodoro. "Não há registro de que tenham sido armazenados ou encontrados artefatos explosivos com fósforo branco ou combustível líquido. O Exército Brasileiro não emprega, nem possui, armas químicas". Garante ainda que “não há qualquer tipo de munição armazenada. Dos antigos paióis, restam exclusivamente escombros”.
 
Há mais de três anos, pois, o terreno não representa mais perigo. Acontece que como o Ministério do Esporte abandonou o projeto após o imbróglio judicial de 2014, a construção do novo autódromo ficou sem um mecenas. Com a justificativa perfeita de que o terreno era minado e que uma série de bombas enterradas nos 2 milhões de m² de solo de Mata Atlântica, úmido e com mata fechada, seriam quase impossíveis de limpar, a Prefeitura, então chefiada por Eduardo Paes (MDB-RJ) e o Ministério do Esporte deixaram o assunto ser escanteado.
 
Houve até uma representação oficial na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro para mudar o local do autódromo para o bairro de Guaratiba, costurada pelo vereador Carlo Caiado (DEM-RJ), mas que também não avançou. O assunto foi posto em espera por todo o período de preparação para as Olimpíadas 2016 e até a eleição de um novo prefeito, Marcelo Crivella (PR-RJ). Pressionado por movimentos favoráveis ao autódromo, Crivella organizou uma reunião em março de 2017, cerca de dois meses após sua posse. 
Crivella durante cerimônia de lançamento da PMI (Foto: Reprodução/Twitter)

O evento solene foi realizado no Palácio da Cidade, em Botafogo, e contou com Crivella assinando um procedimento de manifestação de interesse [PMI] para o projeto do novo autódromo, trazendo novamente à baila o terreno do Campo de Camboatá. Sem o mecenato do Ministério do Esporte, a prefeitura sempre anunciou que necessitava do investimento da iniciativa privada para realizar um estudo de viabilidade do projeto.
 
Segundo apurou o GRANDE PRÊMIO, no entanto, após a solenidade de março de 2017, a Prefeitura do Rio de Janeiro ficou um ano sem se manifestar sobre o assunto. Consultada pelo GP, a Federação de Automobilismo do Rio de Janeiro chegou a afirmar, em março de 2018, que "houve audiências com alguns Secretários Municipais que não sabiam ou se esquivaram do assunto."
 
Sem condições técnicas de realizar os estudos de viabilidade, a Prefeitura propôs uma série de requisitos para ver se algum grupo privado era capaz de realizar o trabalho. Desta feita, houve de fato quem se apresentasse para realizar o estudo. Um projeto de mais de 700 páginas feito pelo consórcio Rio Motorsports - que tem como uma das formadoras a Tilke E&A, empresa do arquiteto alemão Hermann Tilke.
 
Originalmente, o estudo deveria ser entregue até abril, mas o GRANDE PRÊMIO apurou que houve um pedido para postergar o limite em mais 60 dias - algo que foi aceito pela Prefeitura. O estudo foi entregue no último dia 4 de junho, segundo publicou o 'Globoesporte.com'.
 
Após apresentado, o estudo passa por uma análise, com duração de cerca de 60 dias. Depois disso, a Prefeitura pode abrir um edital licitatório para concorrência pública.
 
A Rio Motorsports planeja entrar na disputa e, para tanto, já conseguiu o acordo com a Dorna e está em contato com outras categorias nacionais, como Stock Car e Porsche Cup para levar o esporte de volta ao Rio de Janeiro.