Grande Prêmio

Opinião GP: Em defesa do Estado Automobilístico de Direito

Editorial do GRANDE PRÊMIO faz apoio ao 'primeiro candidato' nas eleições da 'FIA' que estão por vir no próximo domingo
Warm Up / VICTOR MARTINS, de São Paulo
 Interlagos (Foto: Red Bull)
A FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE AUTOMOBILISMO (FIA) vai realizar uma nova eleição depois do mandato tampão do atual presidente, que substituiu o anterior em uma manobra orquestrada por ele mesmo. Dentre os vários candidatos que se surgem, dois deles se destacam.
 
O primeiro tem formação acadêmica, Engenharia Mecânica, com especialização em Gestão de Negócios e Economia, e atuação nas principais universidades locais. Por quatro anos, foi o presidente da principal federação de automobilismo local (FAU) de seu país. A FAU, no entanto, foi motivo de ampla investigação, e descobriu-se que parte dos integrantes desviou recursos e atuou de forma ilícita. Nenhum dos crimes teve envolvimento do dirigente.
 
O segundo tem o superior quase-completo e está há três décadas como representante do Conselho Técnico Desportivo da entidade máxima de seu país, transitando entre os mais variados mandatos. Há contra ele uma série de suspeitas e irregularidades de desvio de dinheiro, usando cheques da FAU onde atua. A federação local confirmou à justiça que a grana não foi contabilizada no balanço fiscal. Seus filhos fazem parte do Conselho Técnico e seguem sua cartilha. Nenhum deles registrou qualquer proposta que tenha feito o automobilismo local melhor, mas se sabe que o patrimônio de todos cresceu vertiginosamente durante o período.
 
Os eleitores da entidade máxima bradam que tudo precisa mudar no automobilismo. Estão muito preocupados com a queda de audiência no mundo todo, sobretudo com a F1. A competição mudou de dono, mas as corridas estão péssimas. “Do jeito que está, não dá”, falou um em condição de anonimato porque teme represália. Outro foi mais específico. “Aquela asa aberta lá, que coisa ridícula, e tem aquele safety-car virtual, punição por fluxo de combustível na primeira volta da corrida”, reclamou. Um terceiro foi além e reclamou da “ausência de mulheres”, mas não pela competição em si. “Que porra é essa de acabarem com as grid-girls? É tradição, pô, e ficam com esse mimimi de igualdade. Temos de manter as gostosas.”
 
Também se queixam que o kart e as categorias de base não têm feito um trabalho suficientemente bom para prover novos pilotos nem mantido as melhores condições de kartódromos e autódromos. O fluxo de caixa aparenta uma queda vertiginosa, e há, também, suspeita de uso indevido entre membros do atual governo, incluindo o presidente, investigado muito antes do início de seu mandato. Os acusados negam. 
 
Há muita dúvida sobre o que o primeiro candidato pode fazer por mais que suas propostas tenham sentido e sejam benéficas para o automobilismo: baixar os preços das carteirinhas; criar um EEE (Enlace Entidade-Empresa) que garanta aos pilotos apoios e patrocínios durante o desenvolvimento de suas atividades em pista e impeça uma eventual desistência ou paralisação da carreira; formar uma Universidade do Automobilismo que participe na formação dos pilotos que deixam os estudos e dê a opção de cursos, de mídia training a marketing, bem como engenheiros, dirigentes e comissários; desenvolver o esporte em praças subdesenvolvidas, como os países da África e da América Central, realizando também ações sociais de amplo interesse e alcance. 
 
O segundo é a antítese do primeiro e se preparou justamente para ser isso. Nenhuma de suas propostas é realmente muito clara, e tudo que se pergunta a respeito para ele, pede que se remeta ao ‘Box Atlantic’, seu homem de confiança. O negócio principal parece ser privatizar autódromos do mundo todo. Mas chamam atenção as declarações e a postura do candidato, por enquanto favorito a ganhar a presidência.
 
Sobre os preços das carteirinhas e os que não podem seguir a carreira pelos altos preços, foi enfático. “Se quer ser piloto e não tem dinheiro, que vá jogar bola na várzea ou na rua. Ou procure um trabalho”. O candidato também se mostrou contra a formação intelectual. “Piloto só precisa aprender a acelerar e frear, virar o volante e trocar marcha”. Aproveitou para fazer um adendo estranho. “E eu sou contra circuito oval porque só ficam virando para a esquerda. Quando eu for presidente, vou mudar isso: vão ter de virar para a direita. Esquerda, nunca”, gritou. Também não se preocupou com o trabalho de desenvolvimento em locais pobres. “Mesma coisa do piloto que não tem grana. E na África só tem deserto e negro pedindo água e comida. Se negro tiver de praticar esporte lá, que seja correndo, fazendo aquelas maratonas pra procurar água.”
 
Lembrado que o campeão da F1 é negro, soltou que “Lewis Hamilton está em um processo de branqueamento da raça”. Sobre as mulheres, disse que “não há nenhum plano específico porque o politicamente correto gera muito ‘coitadismo’. “A mulher não se acha boa o suficiente? Ela que faça por merecer seu lugar”. O candidato riu quando se falou de machismo ou que o automobilismo é prioritariamente masculino. “O que eu posso fazer? O cara é macho, acelera, tem colhões pra isso. Mulher não tem colhão e prefere esporte de menina, tipo vôlei ou ginástica. E não vai ter nem se mudar de sexo, essa bobagem que tem hoje. E você sabe o que falam de mulher no volante. Daqui a pouco, vocês vão querer que eu mude o nome do TT da Ilha de Man para Ilha de Woman”, resmungou. 
 
Antes de ser perguntado o que faria diante de denúncias de assédio, falou que “ainda bem que não tem gay no automobilismo, senão todo mundo ia querer correr no carro rosa da Force India lá”. Completou com “se a piloto (sic) for estuprada, ela deve ter dado algum motivo, se trocado na frente do piloto no vestiário, deu mole”. “E vamos combinar que tem aí piloto (sic) que nem merece ser estuprada”, disse. 
 
O discurso do candidato começou a assustar, mas encontrou muitos apoiadores entre os eleitores. Jornalistas e opinião pública começaram a insistir sobre suas ideias. “A F1 realmente está muito chata. Você vê dois pilotos se tocando, o diretor de prova se reúne e aplica lá uma punição. Corrida é acidente, todo mundo quer ver acidente, que os caras saiam quebrados ao meio”, declarou.

Rumores apontavam que Pastor Maldonado poderia ser chamado para ser Comissário Permanente para análise de acidentes nas corridas, mas seu nome foi descartado porque o segundo candidato não gostou do número com o qual o piloto corria na F1.

O candidato disse que quer um automobilismo semelhante ao de “40, 50 anos atrás”. Um repórter perguntou se não considerava o carro uma arma. “Se for, então sou a favor", rebateu, usando um freio-de-mão como se fora um fuzil. "O piloto tem de se defender como pode. Qualquer coisa tem lá a barreira de pneus, o alambrado, tem proteção demais hoje, as pistas têm aquelas áreas de escape que são colo de mãe. Piloto não pode ter medo de morrer. E se morrer, paciência, morreu”. E se isso provocar entre os pilotos uma sensação de que podem fazer tudo? “Aí a pena tem de ser grande, tem de banir o sujeito pra vida toda”, disse, fazendo uma pausa. Segundos depois, emendou. “Podemos até mesmo pensar em criar um Tribunal de Punições com opção de tortura, quem sabe...”   
 
Ainda, o segundo candidato disse que vai rever a utilidade do safety-car. “O carro não precisa de segurança”, alegou. Ele pôs em xeque a funcionalidade da telemetria implantada pelo grupo do outro candidato “porque ela pode ser fraudada”. Também disse que “vai atropelar e varrer e transformar em na brita” quem não estiver a seu lado.
 
A Fórmula E pode perder espaço ou até mesmo ser abolida na gestão do segundo candidato. "Aquilo parece um autorama com liquidificador ligado", definiu. "Corrida é gasolina queimando, é fumaça preta no ar, é ronco de motor alto. Ninguém vai morrer por causa disso. Essa preocupação com meio-ambiente e sustentabilidade não combina com o esporte", completou, levantando a hipótese de usar uma porcentagem do petróleo extraído do pré-sal para as corridas. Os carros elétricos não são o futuro? "O futuro, a Deus pertence", respondeu.
 
Dirigentes das montadoras envolvidas na FE não viram com bons olhos tais declarações. "Ele está indo na contramão da indústria. Gastamos milhões em investimento nesta plataforma", comentou um representante de uma marca alemã. Há a expectativa de que as marcas façam um abaixo-assinado em favor do primeiro candidato, que é expert em mobilidade urbana.
 
Mesmo assim, a candidatura do segundo ganhou adesão da grande maioria dos envolvidos no esporte. Um campeão chegou a postar fotos com o postulante nas redes sociais. Representantes de entidades e institutos educacionais e sociais já participaram de reuniões e discutem algumas medidas em caso de vitória. Alguns pilotos chegaram até a fazer menções a seu candidato em seus carros. Por outro lado, a família de Jules Bianchi emitiu um comunicado rechaçando qualquer ligação entre o candidato e o piloto, morto há mais de dois anos em virtude das consequências de um acidente no GP do Japão de 2015. “Apoiá-lo é falta de caráter”, falou.

Alguns dos candidatos que não chegaram à fase final da eleição apoiam o primeiro candidato, de forma crítica, dada a ferocidade do discurso e das ideias do segundo. “Ele vai acabar com o automobilismo”, sentenciou um deles. “Ele é um risco ao esporte que não queremos pagar pra ver. Vai comandar o esporte com autoritarismo e acabar com todos os avanços que foram feitos nas pistas e entre os pilotos”. Outros setores da sociedade do esporte a motor, conscientes do iminente risco, mudaram de lado. Até mesmo outros atletas e artistas renomados se engajaram na campanha, que se encerra no próximo domingo, dia do GP do México. 
 
O primeiro candidato tem apresentado novas propostas e juntado algumas dos candidatos derrotados. Um piloto claramente lhe dá respaldo lá do outro lado do mundo. A virada é possível, e o candidato ainda busca um confronto de ideias com o segundo – que tem evitado por “estratégia de corrida”. “Nós vamos ultrapassar esse retardatário de araque”, bradou o primeiro.
 
O GRANDE PRÊMIO, em nome do Estado Automobilístico de Direito, da normalidade das instituições e entidades, da igualdade entre pilotos e pilotas, de todas as raças e de todos os sexos, e, sobretudo, avesso ao discurso de ódio, horror e pobreza intelectual e humana, embora ressaltando as críticas que devem ser pontuadas ao entorno da candidatura, apoia em sua plenitude o primeiro candidato e entende que o segundo representa uma ameaça claríssima à integridade física de quem discorda dele e do esporte como um todo, e um retrocesso inominável em tempos como estes.