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'Modo selvageria' faz Fórmula E ser carrinho de bate-bate, mas chave do equilíbrio é classificação que irrita pilotos

É até compreensível que os pilotos reclamem tanto do formato de classificação. Realmente ele não premia os líderes do campeonato, mas, com todos eles juntos, não é tão absurdo e equilibra a competição. Estimula o show, algo que a Fórmula E ama

Grande Prêmio / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
A cena é mais do que conhecida de quem está acompanhando atentamente a temporada 2018/19 da Fórmula E: um revés no treino de classificação faz com que candidatos ao título saiam cuspindo marimbondo contra o formato e a organização. Afinal, a partir do momento em que os grupos passaram a ser inversamente proporcionais à pontuação do campeonato, os líderes acabam prejudicados. Neste sábado (13), em Roma, foram Sam Bird e Lucas Di Grassi quem reclamaram. Antes, Jean-Éric Vergne já cansou de falar. Apesar das reclamações, o formato é bom para a categoria e tem grande papel na incrível sequência de sete vencedores de sete equipes diferentes nas primeiras sete corridas do campeonato.
 
Dizer isso não é dizer que os pilotos não podem reclamar ou que não contam com boa parcela de razão no que dizem. De fato, não há justiça no sistema. É realmente verdade. Por que o sujeito e a equipe com melhor rendimento e na dianteira de uma luta pelo campeonato vão à pista no pior momento possível, sempre prejudicados em frente aos adversários e menos sucesso?
 
Porque é divertido, ora.
 
Os ponteiros do campeonato estão prejudicados contra pilotos com bastante menos pontos, sim, mas estão em igualdade de condições contra seus rivais mais próximos e diretos. No primeiro formato da classificação, do sorteio direto, um rival podia cair no primeiro grupo e outro no quarto. Bem mais desequilibrado. Depois, quando juntaram os cinco líderes num grupo só que poderia entrar em qualquer espaço, ver os líderes com boa posição de pista desequilibraria mais um campeonato e afastaria cada vez mais o equilíbrio que tanto chamou a atenção sobretudo na primeira temporada. 
 
Com o sistema atual, colocando ponteiros logo de cara, cresce a possibilidade de diferentes figuras na luta por pole e, por consequência, por vitória. E ainda complica a vida dos líderes, que têm todas as condições de render, mas se falharem acabam tendo que largar no meio do pelotão e mostrar ação durante a corrida.
 
Não é meritocrata, mas é bem divertido. Energiza e faz bem à categoria ter tantos vencedores e equipes diferentes, além de uma constante mudança na liderança do campeonato. Mitch Evans e Stoffel Vandoorne conseguiriam render como fizeram na corrida se tivessem que lutar por um espaço de grid com Di Grassi, Bird ou Vergne, de carros superiores, em condições de pista favoráveis? Evans até foi bem no TL2, mas é bem pouco provável, né? Vergne e Bird estariam envolvidos com tanto vigor no meio do pelotão? Não, né? Passa a valer, então, a regularidade de quem consegue pontuar toda semana, mesmo saindo de trás. Os resultados expressivos vão ser raros e fazer muito diferença. Pontuem, pois.
 
O formato de corrida, com o modo ataque e excesso de energia que causa selvageria, toma quase todos os espaços de discussão. Mas o formato da classificação, tão atacado pelos pilotos, é fundamental na lógica da aproximação de forças no grid.
 
Como disse o agora líder do campeonato e extremamente regular Jérôme D'Ambrosio, produz um "show incrível". E a Fórmula E se vê, acima de tudo, como show. 
Mitch Evans (Foto: Jaguar)
Evans, que entrou na briga pelo título, não escondeu a emoção com a vitória. Admitiu que as lágrimas chegaram e vibrou por ter enfim vencido na FE justo quando a família estava presente junto de seu mentor, o ex-F1 Mark Webber.
 
"Não tenho palavras. Foram duas temporadas difíceis. Foi lindo hoje, eu tinha lágrimas nos olhos. Tiramos o peso das nossas costas, já tinha virado um peso gigante", brincou. "Começamos a equipe do nada. Estou aqui desde a primeira temporada e, claro, queríamos que isso acontecesse antes, mas é muito difícil, não acontece facilmente", afirmou.
 
"É incrível que ele e minha família estivesse aqui para acompanhar isso. Nós passamos por muita coisa - eu não vim do outro lado da rua. Sou do outro lado do mundo. É uma incrível jornada e ter minha família aqui, poder recompensa-los, é incrível", comemorou. 

O segundo colocado, André Lotterer, parabenizou o piloto da Jaguar pela vitória em um dia de atuação condizente com o resultado. "Ele fez uma ótima corrida e foi uma grande batalha. Mitch era simplesmente mais rápido", comentou.
Lucas Di Grassi (Foto: Audi)
Di Grassi conseguiu sair de 15º para o sétimo lugar e marcou mais alguns pontos: agora são apenas sete atrás da liderança. Lucas listou um conjunto de coisas como o baixo índice de efetividade do modo ataque na pista romana como parte de não fazer mais. 
 
“Tudo isso junto e o fato de a chuva ter atrapalhado a minha classificação para o grid, fez dessa prova uma das mais tensas da minha carreira na FE”, afirmou.
 
“Quando vi de onde iria largar, meu foco passou a ser 100% pontuar o mais possível, já que a vitória ou pódio eram objetivos muito distantes, falando realisticamente. Felizmente deu tudo certo e agora saio de Roma na quinta posição e apenas sete pontos atrás do primeiro colocado. Essa diferença, no contexto do atual campeonato, é praticamente um empate técnico, como o pessoal costuma dizer. Tudo pode acontecer este ano neste campeonato, como estamos vendo a cada corrida que disputamos. Em Paris tem mais”, lembrou.
Felipe Massa (Foto: Venturi)
Felipe Massa ocupava exatamente o sétimo posto que foi de Di Grassi quando, uma volta antes do companheiro Edoardo Mortara, abandonou. A Venturi acredita que o problema de ambos foi no eixo transmissão, que já havia dado defeito para Massa durante os treinos livres.
 
Com os nove primeiros colocados do campeonato separados por 13 pontos, a temporada volta em dois sábados, direto de Paris.