F1

Ponto para volta mais rápida está longe de mudar panorama da F1, mas anima parte chata das corridas

A Fórmula 1 raramente tem corridas com final agitado. O ponto extra ao dono da volta mais rápida ajuda a mudar o panorama: como se viu no GP da Austrália, os pilotos estão dispostos a se arriscar pela bonificação, trazendo alguma imprevisibilidade aos últimos giros

Grande Prêmio / VITOR FAZIO, de Berlim

Ninguém acompanha corridas de Fórmula 1 pelas últimas voltas. A categoria eurocêntrica não é como MotoGP ou Nascar, que com certa frequência trazem reviravoltas no apagar das luzes. As últimas voltas da F1 costumam ser hora de poupar equipamento e trazer o carro para casa – ou ao menos costumavam ser assim. Com o artifício do ponto extra para o dono da volta mais rápida de um GP, as corridas finalmente ganharam um fator de incerteza para os momentos que tendem a ser dos mais aborrecidos.
 
O exemplo de Melbourne foi claro. Com três voltas para o fim, já estava claro que o top-5 não teria troca de posições – Max Verstappen não estava tão próximo de Lewis Hamilton, enquanto Charles Leclerc estava vetado de atacar Sebastian Vettel. Foi aí que um jogo diferente começou: o de levar os motores à configuração mais potente para ver quem conseguiria o mais próximo de uma volta de classificação. Verstappen chegou a dar pinta de que seria o vitorioso no combate, mas Valtteri Bottas se mostrou imbatível no giro 57 de 58.
 
Foi uma disputa breve e de pouca consequência para o campeonato, mas que divertiu quem desbravava a madrugada. Nada mais aconteceria em um GP da Austrália que, apesar de sempre muito aguardado pelo público, costuma trazer equipes e pilotos cautelosos. Com 20 corridas pela frente, não dava para esperar alguém arriscando tudo em briga por pontos. Claro que pontos são importantes, mas é mais conveniente correr atrás disso em algo mais simples como somente tentar volta rápida.
Valtteri Bottas levou o ponto extra da volta mais rápida em Melbourne (Foto: AFP)
Ao contrário do que chegou a se imaginar anteriormente, o ponto extra foi considerado importante pelos pilotos. O top-3 inteiro correu atrás disso. Charles Leclerc foi o único a remar contra a maré, seguindo instruções da Ferrari para seguir na pista e atrás de Sebastian Vettel, ao invés de fazer um pit extra para tentar algo com pneus novos. As equipes intermediárias também deram de ombros, mas em um cenário que já era previsível – ninguém tinha velocidade suficiente para desafiar Bottas, ou margem suficiente para trocar pneus e tentar algo com borracha nova.
 
Independente disso, o ponto extra sai da Austrália certamente mais aclamado do que quando entrou. Ainda é possível questionar a validade para um campeonato que recentemente foi decidido por grandes margens e não por pequenas, mas ninguém há de dizer que foi um tiro n’água da parte da F1 e do Liberty Media. Se a ideia era animar as corridas, mas sem aplicar algum conceito alienígena para uma categoria frequentemente conservadora, já começou a dar certo.
 
Ainda é preciso, todavia, ver como o artifício vai afetar corridas em outras condições. Apesar das características naturais dos carros – menos combustível significa melhores voltas, e isso naturalmente acontece sempre no fim –, não dá para cravar que cada etapa vai ser como a da Austrália.
Depois de uma largada animada, a parte final do GP da Austrália foi menos emocionante (Foto: Mercedes)
Mônaco, por exemplo: é espero pedir que os pilotos levem ao limite um bólido com pneus mais gastos em um traçado que pune erros com facilidade? Na chuva: pilotar com agressividade e arriscar uma escapada para levar o tão desejado pontinho? E existe mais uma questão, que deve predominar no segundo semestre: conforme as unidades de potência se aproximarem do limite da vida útil, vai valer a pena arriscar uma quebra para tentar a volta mais rápida?
 
O GP do Bahrein vai trazer novas respostas. Temos aquelas que são muito importantes, como o que há de errado com o ritmo da Ferrari e a verdadeira dimensão da vantagem da Mercedes. Mesmo assim, não dá para ignorar perguntas secundárias, como a para saber se a diversão forçada do fim das corridas da F1 vai ser regra ou não.