F1

Opinião GP: Vitória inesperada de Bottas na Austrália é boa notícia para Ferrari que ainda tenta se entender

A vitória de Valtteri Bottas no GP da Austrália tem muitos significados. O desempenho dominante serviu para afastar a atuação submissa e acomodada de 2018, além de renovar as forças para um novo recomeço com a esquadra alemã. Só que o triunfo pode ter representado ainda mais para a Ferrari: apesar da corrida aquém do esperado, a equipe italiana vislumbra nesse novo Bottas um aliado. Alguém que, inesperadamente, pode tirar pontos de Lewis Hamilton

Grande Prêmio / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba

AINDA NA PRÉ-TEMPORADA, Valtteri Bottas falava em como havia se preocupado, ao longo do inverno no hemisfério norte, com a preparação física e mental, especialmente, para o campeonato deste ano. O finlandês discorria sobre o fato de que não gostaria mais de ser colocado em posição de escudeiro, uma vez que a Mercedes prezava pela igualdade de condições. De fato, o nórdico mergulhou em um programa diferente, deixou a barba crescer e foi à luta. O primeiro sinal de que a briga poderia ser mais acirrada surgiu na classificação do GP da Austrália. Lewis Hamilton confessou que terminou a volta da pole “tremendo”, tamanha a performance de seu companheiro de equipe. O melhor ainda estava por vir, porém. E não deixa de surpreender. 
 
É no domingo que as coisas realmente acontecem. E Valtteri não perdeu a chance. Tracionou bem da segunda colocação do grid e passou o pole Hamilton logo nos primeiros metros da reta principal do Albert Park. Ali, o inglês já entendeu que havia perdido a parada. Bottas foi sempre o mais rápido, abriu caminho com facilidade e não deu qualquer chance para os rivais e nem para a equipe tentar algo do pit-wall. Arrogante, ainda peitou o chefão Toto Wolff e foi atrás da volta mais rápida da corrida no penúltimo giro. Sai de Melbourne com imponentes 26 pontos e com certeza de que a mensagem entregue à Mercedes tem os tiques azuis. 
 
Impecável é o que define a performance de Bottas. E ele percebeu isso no momento em que cruzou a linha de chegada e saiu xingando seus críticos, para depois, ao deixar o W10, dizer que foi a “melhor corrida da carreira”. Foi mesmo. Portanto, o triunfo de Valtteri tem muitos significados para ele e para a Mercedes, só que também é uma luzinha que acende no fim do túnel da Ferrari. Como assim?
Valtteri Bottas pode ser o fiel da balança na briga pelo título (Foto: Mercedes)
Quer dizer, a equipe italiana viveu um fim de semana confuso e errático. Depois de ter deixado a impressão de ter um carro veloz e eficiente, o time vermelho decola de Melbourne com muitas perguntas sem resposta. Ainda que pese a natureza da pista, a SF90 não correspondeu como se esperava, apesar de um bom início prova. Sebastian Vettel citou uma perda significativa de aderência e disse não saber o que provocou a queda acentuada de rendimento como um todo. Isentou a equipe de erros de estratégia também. 
 
Só que, em determinado momento, o tetracampeão questionou seus engenheiros sobre a razão para uma performance tão lenta. Uma das explicações pode estar ligada a um erro tático, sim. Na tentativa do ‘undercut’, ou seja, uma parada antecipada para superar Hamilton nos boxes, o pit-wall chamou Seb cedo demais, o que o fez permanecer com o mesmo jogo de pneus médios por 44 voltas – daí a facilidade com que Max Verstappen chegou e ganhou a posição. O holandês obedeceu a uma estratégia menos agressiva, mas mais eficiente.
 
Mas o que tem a vitória do número 2 da Mercedes com os perrengues da Ferrari? É que, apesar do resultado muito aquém do esperado, esse Bottas pistola e faminto pode se tornar um auxiliar indireto para os italianos, que não podem se dar ao luxo de errar. Ou seja, Valtteri se mostrou como alguém que pode tirar pontos de Hamilton na corrida pelo título. E a torcida vermelha, portanto, está em uma nova rivalidade dentro das garagens prateadas. Esse cenário se torna verossímil também diante do que a equipe italiana já estabelece: Charles Leclerc será escudeiro mesmo – e esse é um jogo arriscado. 
Sebastian A Ferrari já tem a Red Bull para se preocupar (Foto: AFP)
A Red Bull também parece que vai ter um papel decisivo neste roteiro. Mais que isso: pode estar mais perto dos carros vermelhos do que dá a entender. Verstappen foi soberbo em Melbourne. Aproveitou bem a boa estratégia e, com um ritmo de corrida decente, não perdeu tempo na ultrapassagem em cima de Vettel, para arrancar um pódio logo na estreia da parceria com a Honda. 
 
Além de um resultado inesperado lá na frente, mesmo que a corrida não tenha sido aquele primor, a F1 pode deixar Melbourne com a sensação de viver um combate real no pelotão intermediário, que não vem tão atrás assim da 'F1 A’. Surpreendentemente, a Haas foi quem venceu essa primeira batalha, quase uma redenção do fiasco do ano passado. Ainda que o carro não tenha a confiabilidade necessária e que falte ao time um ajuste fino em termos de operação, Kevin Magnussen foi valente e, sem erros, se posicionou como o melhor do resto, depois de uma batalha contra Nico Hülkenberg. A Renault decepciona, pois esperava-se mais.

Alfa Romeo também ficou devendo, mas há potencial ali, enquanto a Racing Point é realmente uma surpresa, especialmente pelo resultado de Lance Stroll, que não só aproveitou uma melhor estratégia, como fez por merecer a zona de pontos por ter sido sempre consistente e largado muito bem. Tudo isso somado gera esse grupo tão compacto, que ainda tem uma McLaren ensaiando uma tentativa de se fortalecer. E uma Toro Rosso também candidata. 
 
A única equipe que não provocou surpresa alguma foi a Williams. A pífia performance foi apenas um reflexo do estado melancólico pelo qual atravessa a equipe que já dominou a F1 com um ‘carro de outro planeta’. Agora, mais do que nunca, precisa de apenas um modelo que sirva a esse mundo.

O Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana.