F1

Opinião GP: Com torcida ao lado, proteção da Red Bull e só ouvindo a si, Verstappen se sabota

Max Verstappen é um dos grandes personagens do grid da F1 atual. Talvez o maior talento desde Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, mas a condescendência com a Red Bull trata suas atitudes muitas vezes mimadas e arrogantes pode transformá-lo em vilão, em um momento em que a F1 vibra com suas atuações de pista, o que só atrai mais seguidores
Warm Up, São Paulo / EVELYN GUIMARÃES, de Interlagos
 Max Verstappen (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

MAX VERSTAPPEN SURGIU NA F1 quase que com a mesma intensidade de Marc Márquez na MotoGP. Precoce e altamente talentoso, o holandês chegou chegando, como se diz. Mais jovem piloto a estrear no Mundial na época, em 2015, Max teve uma ascensão meteórica ao esbanjar velocidade, arrojo e agressividade, encarando nomes de peso do grid sem a menor reverência. Tal como Márquez, mudou regulamentos e se impôs rapidamente. A personalidade forte também logo ficou evidente nos primeiros momentos, e toda essa combinação explosiva encantou os fãs e arrepiou adversários. Hoje, o filho de Jos tem seguidores por todas as partes e é uma das peças mais importantes do grid. A massa laranja que o segue se espalha por onde a F1 vai, mas há em Max um elemento de vilania. E isso ficou claro no exagero com que lidou com o episódio que mudou a história do GP do Brasil do último domingo.
 
Vindo de vitória no México, Verstappen só obteve o quinto lugar no grid em Interlagos. Só que a Red Bull se apresentou mais forte do que na classificação, e o holandês se viu em condições de brigar com os carros prateados e vermelhos à sua frente. Volta a volta, foi chegando nos rivais e ultrapassando um a um, até que teve a chance de assumir a liderança. A equipe austríaca apostou bem na tática supermacios/macios para colocar Max na briga.
 
Na volta das paradas de box, Verstappen foi capaz de passar Lewis Hamilton para assumir a ponta novamente. Uma vez líder, tratou de abrir distância, até que Esteban Ocon surgiu mais rápido, tentando recuperar uma volta perdida. Os dois dividiram o famoso S de Interlagos, e Max acabou levando a pior. Depois da corrida, o holandês desceu do carro transtornado e partiu para a briga contra o adversário. Agrediu com empurrões e foi chamado pelos comissários. Terá de cumprir serviços comunitários pelo incidente
Câmeras flagram empurrões de Verstappen em Ocon após o GP do Brasil (Foto: Reprodução)
A frustração pela perda da vitória até era compreensível, mas o comportamento depois mostrou um garoto mimado e arrogante. A pior face de Verstappen. Mesmo adorado pela torcida – as arquibancadas em Interlagos viram algo que é comum na Europa, ou seja, o mar laranja – e pela equipe, Max acabou elevado a um pedestal prematuramente a ponto de agir mal quando desce dele.
 
Acostumado com o respaldo da Red Bull, Verstappen não tem limites. Faz e fala o que quer, sob uma condescendência irritante de seus chefes. A prova maior foram as frases ditas por Christian Horner e Helmut Marko. Ambos puxaram um discurso de ódio e intolerância no caso do episódio do Ocon, desnecessário ao esporte. E não é a primeira vez que o piloto perde a linha ou se envolve em situações polêmicas. A primeira parte da temporada está aí para mostrar, como as corridas do Bahrein e da China, sem contar Mônaco.
 
É claro que Max ainda é muito jovem, mas já está há algum tempo em posição privilegiada na F1, quase tanto quanto a de Hamilton e Sebastian Vettel, por isso suas atitudes também ganham as manchetes. 
 
A cena de domingo destrói ainda tudo o que o piloto vinha construindo nesta segunda fase de temporada. Após o erro grotesco em Monte Carlo, buscou suas falhas e disse que uma das razões pelas quais parou de se envolver em confusão foi porque passou a ouvir a si mesmo em diversas situações. E, de fato, isso funcionou por um tempo. Mas não o bastante.
 
Talvez a ‘dura’ que recebeu de Hamilton após a corrida seja a maior lição da temporada. O inglês questionou a atitude de pista do jovem e foi categórico: “Você tinha mais a perder”. É algo que vale não só para as decisões dentro da pista, mas também para como Max pretende conduzir a carreira, que sabota a cada postura intempestiva.  

O Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana.