F1

Lito Cavalcanti descarta mágoa e diz que demissão do SporTV é resultado de “processo de renovação”

O automobilismo do SporTV acaba de perder dois de seus principais nomes. Desde os primórdios do canal, em 1994, atuando como comentarista, Lito Cavalcanti deixa o canal de TV paga do grupo Globo junto com o piloto da Stock Car
Warm Up / VICTOR MARTINS, de São Paulo / NATHALIA DE VIVO, de São Paulo
As transmissões do automobilismo no Brasil vão ter grande mudança a partir da temporada 2019. Após quase 25 anos no SporTV, Lito Cavalcanti deixa seu posto como comentarista. O GRANDE PRÊMIO apurou a informação, que foi confirmada pelo jornalista, nas primeiras horas desta terça-feira (11).

Horas mais tarde, o GP soube que Max Wilson, companheiro de transmissão de Lito, também foi dispensado pela emissora.
 
Lito era o comentarista principal do canal por assinatura e atuava constantemente ao lado do narrador Sérgio Maurício e Max nas transmissões da F1, participando dos treinos livres e das classificações ao vivo. Na Stock Car, desempenhava o mesmo papel junto ao colega Reginaldo Leme. 

Entende-se que a saída dos dois se deve à unificação da transmissão Globo-SporTV para a F1, algo que aconteceu na segunda metade da temporada deste ano. Ou seja, a narração que é feita no domingo ao vivo é usada na reprise do canal pago, dispensando a presença de Lito e Max. 
 
A jornada de Lito começou em 94, quando assinou como freelancer ainda no início do canal. Posteriormente, foi contratado em "2003 ou 2004, não me lembro direito", como falou ao GRANDE PRÊMIO. A saída se deu oficialmente na segunda-feira, um dia depois da decisão da Stock Car em Interlagos.
 
"A minha geração já vinha sendo afastada. Pessoas de altíssima competência, em cargos elevados. É um processo dito de renovação, concordemos ou não com esse conceito”, disse.

Lito Cavalcanti (Foto: Reprodução)
O currículo de Lito no esporte a motor é bastante extenso. Em 68, escreveu sobre os 1000 km de Brasília para a 'Gazeta do Ceará' - seu primeiro texto na área. Depois, foi para a TV Tupi, onde participou de sua primeira transmissão, o GP da Bélgica de 73, além de ter sido correspondente da 'Autosport' entre os anos de 1978 a 2001. Na 'IstoÉ', onde atuou por bastante tempo, trabalhou com esporte e outras áreas, como Negócios e Cultura.

Questionado se teria alguma queixa sobre a demissão, afirmou que “não, ficam só agradecimentos, muitos". "Trabalhei com pessoas que se tornaram grandes amigos. Ajudei uma garotada que chegou lá como estagiários e hoje têm enorme destaque, já migraram para a nave mãe e estão brilhando, como o Eduardo Melido, que pedi pessoalmente para ser nosso coordenador quando começamos a transmitir a Stock”, explicou. “Levei o Max Wilson para lá, o Giuliano Losacco, o Gastão Fráguas, pessoas que melhoraram muito a qualidade da informação das transmissões de automobilismo. Acho que tenho uma parte no fato de termos hoje uma TV de esporte a motor em um nível comparável ao que há de melhor no mundo. E gosto de pensar que fiz parte dessa evolução. Mas isso não seria possível sem a estrutura, o apoio, a tecnologia que nos foi, e é, disponibilizada”, completou.
Sergio Maurício, Max Wilson e Lito Cavalcanti (Foto: Reprodução)
Carrega alguma mágoa? "Sim, a de parar de fazer uma coisa que amo, mais até dos bastidores do que das transmissões. Mas um dia teria de acontecer. Agora aconteceu. Olho pra trás e gosto do que vejo. E acho que, acima de tudo, fazendo jornalismo honesto, ético, mantendo a dignidade que nossa função exige e merece. Meio piegas, não é? Mas é isso que sinto agora."
 
Algumas vezes, chegou a ser trocado pela dupla de transmissões da Globo — Reginaldo Leme e Luciano Burti — quando o SporTV se encarregava da transmissão ao vivo. "Não gostava, mas não me revoltava. Se a F1 é da Globo, me parece lógico que ela valorize os profissionais que ela sempre utiliza. É do jogo. E tinha o lado positivo de ficar um fim de semana em casa, na confortável condição de espectador", comentou. "É uma delícia passar um fim de semana com minha mulher. Até essas coisas que dizem que recebemos ordens de não falar isso ou aquilo da F1, ah, isso nunca aconteceu comigo lá dentro."
 
Cavalcanti reconheceu que não sabe como vai se sentir no início da próxima temporada. "O que vai ser duro, imagino, é chegar no ano que vem e não ter de me atualizar, ligar para meus colegas da 'Autosport' e descolar uma informaçãozinha preciosa, disso confesso que estou com medo. De ver a garotada se matando com um carro ruim e não ter como dizer que ele é bom, mas que sem carro não se fazem milagres. Ajudar a se ver mais do que os olhos enxergam e fazer a vida ser mais justa para essa garotada que começa uma carreira difícil como essa”, falou.

Por fim, ficou um elogio ao companheiro de décadas, Sérgio Maurício. "Trabalhamos tanto tempo juntos que nos tornamos irmãos. Ele é, para mim, de longe o melhor locutor da TV brasileira, dono de um talento extraordinário, se uma capacidade de improviso espantadora. Situações que normalmente causam caos em uma transmissão, para ele não são nada, ele passa por cima como se fosse tudo previsto, parte do roteiro. Quando falo de mudança na maneira de se fazer esporte motor na TV brasileira, digo também que sem ele não teria sido possível", concluiu.

Procurado pelo GRANDE PRÊMIO, o SporTV não se manifestou.