Endurance

Campeão na LMP1, dupla na Ferrari e vencedor de Indy 500: os sete brasileiros das 24 Horas de Le Mans

O Brasil vai ter novamente uma participação bastante expressiva nas 24h de Le Mans deste ano. Bruno Senna, que puxa a fila depois do título na LMP2 em 2017, é o único representante na classe principal. Mas a mais importante corrida do endurance mundial terá uma dupla tupiniquim na Ferrari, um campeão da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianapolis, além do líder da IMSA, piloto do DTM e um jovem competidor
Warm Up / RODRIGO MATTAR, do Rio de Janeiro
 Bruno Senna, feliz no WEC (Foto: Rebellion)

O interesse dos pilotos brasileiros pelas 24h de Le Mans aumentou de forma significativa nos dois últimos anos. Das participações esparsas no passado e num tempo não muito distante, o incremento da presença do Brasil no plantel de 180 pilotos que disputam a maior prova de Endurance do planeta tem vários significados.
 
Primeiro, que não se pode desprezar um desafio da natureza da corrida do próximo fim de semana. Experimentar a sensação de descer o retão Les Hunaudières é algo que até nomes consagrados feito Rubens Barrichello, campeão da Stock Car e com mais de 320 GPs de Fórmula 1 no currículo, não conseguem explicar.
 
Neste ano, o veterano piloto ficou de fora. Nelsinho Piquet, que foi ao pódio mas acabou perdendo o terceiro lugar no ano passado por conta de uma desclassificação técnica, também não está na festa. Fernando Rees chegou a ser anunciado pela Larbre Competition para a temporada completa do Mundial de Endurance (FIA WEC), mas teve de ser afastado por falta de patrocinadores.

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Entre os 180 competidores, o Brasil tem sete representantes na pista em Le Mans (Foto: FIA WEC)
Segundo, a qualidade dos pilotos que vão representa o país neste fim de semana em Sarthe é indiscutível. Serão sete competidores – um na LMP1 (a categoria principal), dois na LMP2 e quatro na LMGTE-PRO, isso sem contar os brasileiros fora da pista. Caso do engenheiro Patrick Bandeira de Mello, que trabalha diretamente com o Aston Martin de Alex Lynn, Maxime Martin e Jonathan Adam, depois de cuidar do acerto do carro dos campeões de 2016, os dinamarqueses Nicki Thiim e Marco Sørensen. 
 

Patrick não está mais sozinho, já que um segundo brasileiro chegou à equipe de engenheiros da Aston Martin Racing: Gustavo Beteli se junta à trupe do construtor de Gatwick após trabalhar na JRM com os Nissan no Campeonato Britânico de GT3 e posteriormente no suporte às equipes clientes da AMR.
 
E é impossível não mencionar Ricardo Divila, que tem colaborado intensamente nas 24h de Le Mans com diversas equipes – principalmente as de Henri Pescarolo – e Cristiano Macedo, que com a cara e a coragem foi se juntar à trupe da organização do WEC, atuando como coordenador esportivo.
 
Nos bastidores e na pista, o país está bem representado. E dentro do traçado de 13,6 km de extensão, teremos gente perseguindo o bicampeonato, pilotos aniversariando no dia da corrida e outro experimentando a doce sensação da estreia. 
 
A participação brasileira em Le Mans: de Bernardo Souza Dantas a Felipe Nasr
 
Para chegarmos à participação expressiva de 2017 e deste ano, é preciso fazer uma viagem ao tempo e voltar na edição de 1935. Bernardo Souza Dantas – grafado Bernard por várias publicações internacionais por ter cidadania francesa – é nosso pioneiro. Ele disputou a 13ª 24h de Le Mans, em dupla com Roger Teillac, num Bugatti. Abandonaram após 129 voltas percorridas, por quebra de câmbio.
 
Hernando “Nano” da Silva Ramos, igualmente franco-brasileiro (e ainda vivo aos 92 anos!), participou da corrida quatro vezes, entre 1954 e 1959, sem resultados de expressão. A última prova de “Nano” foi a primeira de um outro brasileiro de ascendência estrangeira – Christian “Bino”Heins, que disputou a corrida com Carel Godin de Beaufort, mas acabou também abandonando.
 
Contratado como piloto da Ferrari, Fritz d’Orey era a esperança brasileira para as 24h de Le Mans de 1960. Mas acabou vítima de um enorme acidente provocado – há quem diga de propósito – pelo piloto Walt Hansgen. O desastre poria fim à sua breve carreira de piloto, aos 22 anos de idade.
Bernardo Souza Dantas nas 24h de Le Mans de 1935 (Foto: Reprodução)
E na edição de 1963, seria a vez de Christian Heins perder a vida num acidente no retão Les Hunaudières, após rodar com seu protótipo Alpine numa poça de óleo e bater num poste telefônico. A tragédia abalou o automobilismo brasileiro e pode, guardadas as devidas proporções, ser comparada à morte de Ayrton Senna em 1994.
 
Uma década depois, o país voltava a Sarthe com José Carlos Pace numa Ferrari 312 que dividiu com Arturo Merzario. O brasileiro e o italiano largaram da pole-position mas não puderam conter a Matra, que venceu com Gérard Larrousse/Henri Pescarolo.
 

Apesar do resultado espetacular, até hoje uma das melhores performances de pilotos do país na geral, o inesquecível Moco recusaria voltar a Sarthe. Pace morreu em 1977 e foi homenageado à altura por Marinho Amaral, Alfredo Guaraná Menezes e Paulo Gomes, que chegaram em 7º lugar na geral e segundo no Grupo 5 em 1978, num Porsche da equipe batizada como Cachia Team Pace.
 
Nos anos 1980, a participação brasileira voltou a ser esparsa, com Roberto Moreno tendo aparecido numa oportunidade, Maurizio Sandro Sala iniciando uma trajetória de várias participações e Raul Boesel como piloto da Jaguar no World Sportscar Championship e na IMSA.
 
O paranaense foi quem esteve mais próximo da vitória na geral após o 2º posto de Carlos Pace. Em 1991, acabaram traídos pelo regulamento, que indiretamente ajudou a Mazda, considerada carta fora do baralho. Todos os outros competidores tinham cota de combustível a cumprir e a Jaguar teve que ‘maneirar’ para não terminar com pane seca. Acabaram em segundo.
 
Veio a época de Thomas Erdos – o brasileiro com mais participações, 13 ao todo – e até Nelson Piquet, tricampeão mundial de Fórmula 1, disputou a corrida duas vezes. A lista foi subindo e pilotos como Antonio Hermann e André Lara Rezende sentiram o gostinho de acelerar em Sarthe.
Raul Boesel em Le Mans (Foto: Divulgação)
Por falar em Erdos, esse carioca filho de húngaros foi o primeiro piloto do país a ganhar em subcategorias – foi bicampeão da classe LMP2 em 2005/06, um feito depois igualado pelo paranaense Jaime Melo na divisão LMGT2, hoje desmembrada em LMGTE-PRO e LMGTE-AM, no biênio 2008/09.
 
Coube, porém, a Lucas Di Grassi obter os melhores resultados individuais enquanto a Audi se manteve em Le Mans. O atual campeão da Fórmula E conquistou três pódios com um 2º lugar em 2014, igualando Boesel em 1991 e Moco em 1973. Teria disputado sua quinta prova ano passado se não tivesse se contundido numa prosaica pelada e terminasse vetado pelos médicos.
 
Com a confirmação de Felipe Nasr neste ano, o total de pilotos do país com pelo menos uma participação chega a 27, engrossado por nomes como Ricardo Zonta e Christian Fittipaldi, sem esquecer de Xandinho Negrão.

Os brasileiros de 2018
 
Atual campeão mundial de Endurance na classe LMP2, Bruno Senna vai para sua sexta aparição em Sarthe, tendo sido 6º na LMGTE-PRO em 2014 como melhor resultado e décimo-quarto na geral há dois anos. Ele está na tripulação do carro #1 da Rebellion Racing, que divide com dois vencedores da prova na geral – o alemão Andre Lotterer e o suíço Neel Jani.
 
“Estamos prontos. O carro ficou muito mais dócil de pilotar do que na Bélgica”, garante Bruno, que acabou desclassificado na primeira etapa do campeonato em Spa-Francorchamps por conta do desgaste excessivo do assoalho do carro, que mostrou muito bom desempenho no teste coletivo de dias atrás em Sarthe, assustando – quem diria – a Toyota. 
 
“O trabalho de desenvolvimento do carro desde Spa, passando pelos treinos em Monza e estes últimos em Le Mans, foi muito bem feito. Ainda temos um pouquinho mais a acertar para ficar perfeito, mas melhoramos bastante na interação da aerodinâmica com a parte mecânica, que foi um dos nossos problemas em Spa. Com isso evoluímos nas entradas de curva. Também focamos bastante na maneira como o carro ataca as zebras e lida com as ondulações da pista. Além, obviamente, de procurar sempre tirar o máximo de arrasto para aumentar a velocidade de reta, que é nosso ponto fraco. Os fortes são as curvas de altas, freadas e estabilidade, que está muito boa. Os tempos de volta estão muito bons. Só precisamos melhorar um pouquinho no tráfego”, comenta.
Bruno Senna, feliz no WEC (Foto: Rebellion)
André Negrão vai para sua segunda disputa em Le Mans – na semana de seu aniversário pelo segundo ano consecutivo. No dia da corrida, o piloto completa 26 anos. E espera comemorar com um pódio, já que ano passado o terceiro lugar na LMP2 veio por herança, após a desclassificação do carro do compatriota Nelsinho Piquet.
 
“Os treinos foram bons. A equipe melhorou muito o carro em relação ao ano passado. Acredito que está muito mais equilibrado que o de 2017. Descobriram algumas coisas no carro que podiam ser feitas e melhorou. Nos testes verificamos isso logo de saída. O comportamento melhorou muito, de frente, de traseira, a aerodinâmica, tudo enfim. Estamos bem adiantados”, garante.
 

“Também mudaram os parâmetros de motor. A potência está igual e o consumo está melhor, o carro está econômico”, conta. “Conseguimos um bom consumo de combustível e indo bem rápido nos treinos”, comentou André, que fez uma previsão sobre o que pode acontecer antes da corrida.
 
“Acho que não faremos a pole, porque o carro da DragonSpeed usa Michelin e na volta ‘seca’ é muito melhor que o Dunlop. Em ritmo de corrida, a durabilidade do nosso pneu é melhor em relação aos Michelin. Vimos isso em Spa e em Paul Ricard. É uma corrida complicada, mas acho que temos chance de conseguir um ótimo resultado”, disse o piloto da Signatech-Alpine.
 
“O grid dessa prova está bem legal. Tem muito bons pilotos (Juan Pablo Montoya, Filipe Albuquerque), outros (Bruno Senna, Gustavo Menezes, Mathias Beche) foram para a LMP1, não temos mais o (Nelsinho) Piquet. O grid ano passado era muito mais competitivo, muito mais agressivo do que o de 2018”, acha. “Mas a gente tem uma oportunidade para mostrar que a equipe é boa, acredito no pódio e é o que estamos pretendendo.  Tomara que eu consiga o melhor presente que qualquer um pode receber, mas isso (do aniversário) não muda nada não”, comenta.
 
Num dos boxes vizinhos ao do time francês, estará Felipe Nasr. Líder da série IMSA após a vitória em Detroit, junto ao companheiro de equipe Eric Curran e empatado em pontos com João Barbosa e Filipe Albuquerque, o brasiliense de 25 anos espera usar e abusar de sua experiência de Fórmula 1 e o conhecimento do chassi Dallara – o mesmo de seu protótipo DPi nos EUA – para ajudar a equipe italiana Cetilar Villorba Corse a alcançar um ótimo resultado na prova. 
 
Ano passado, o único time italiano da LMP2 terminou no top 10 da categoria em sua primeira prova em Le Mans. Nos testes preliminares, Nasr fez o 8º melhor tempo, tendo percorrido apenas 19 voltas no circuito de 13,626 km de extensão.
Daniel Serra vai acelerar pela Ferrari nesta semana para buscar a segunda vitória em Le Mans (Foto: Ferrari/Twitter)
A LMGTE-PRO responde pela maior participação de pilotos do país em Le Mans nesse ano, com quatro nomes de muito respeito. Começando, é claro, pelo atual campeão da prova, Daniel Serra. Em grande fase, o piloto de 33 anos vai tentar repetir a façanha de 2017, quando estreou vencendo pela Aston Martin Racing. Neste ano, ele vai defender a Ferrari, através da equipe AF Corse. E está animado, apesar dos resultados nos treinos mostrarem que os carros italianos estão alguns passos atrás de Ford e Porsche, por exemplo.
 
“A expectativa é boa. O carro se comportou bem nos treinos, mesmo com a gente andando pouco, por conta de alguns probleminhas no final. A gente precisa de mais velocidade de ponta. Não somos tão rápidos quanto Porsche e Ford, mas estamos trabalhando. Vamos ver se sai alguma mudança de BoP. Estou bem adaptado à equipe, já conhecia alguns integrantes. Só está difícil segurar a ansiedade”, confessa.
 
Pipo Derani também estará nas mesmas garagens de Serrinha, já que a AF Corse inscreve um terceiro carro extra, para o brasileiro, o finlandês Toni Vilander e o italiano Antonio Giovinazzi. Será a quarta participação do piloto de 24 anos – defendendo a quarta equipe diferente na prova.
 
“É sempre bom poder pilotar em Le Mans, é uma pista especial e deve ser respeitada. Sensação única que sentimos apenas uma vez por ano. A expectativa é boa, porém a real performance de todos saberemos apenas na semana da corrida”, comenta.
 
“Meu objetivo sempre foi pilotar por uma fábrica e isso se concretizou ano passado pela Ford, onde terminamos com uma excelente 2ª posição. Este ano vou pilotar pra Ferrari, que assim como em qualquer montadora existe uma responsabilidade grande, já que Le Mans é uma das maiores provas do mundo. Mas essa responsabilidade vem em forma de motivação e vontade. Afinal, pilotar pra Ferrari é um sonho meu de criança que esta semana se concretizará”, finalizou Pipo.
 
Quem a exemplo de Rubens Barrichello sentiu o gostinho da estreia e ficou com sabor de ‘quero mais’ foi Tony Kanaan. A saída da equipe Ganassi na Fórmula Indy não foi empecilho: o bom baiano de 43 anos foi indicado pela Ford Performance para estar em Le Mans pelo segundo ano consecutivo. 
Tony Kanaan vai disputar a 24h de Le Mans de novo (Foto: IndyCar)
A estreia ano passado foi boa: Tony teve uma sólida performance em seus turnos de pilotagem e ajudou os parceiros Joey Hand e Dirk Müller a terminar em 6º lugar na categoria LMGTE-PRO. Neste ano, ele dividirá o carro #67 do WEC, com os britânicos Andy Priaulx e Harry Tincknell.
 
“A equipe vem da vitória em Spa e eles estavam bem preocupados com a restrição da FIA, que tirou alguns cavalos de potência do nosso carro. Como não treinei aqui, não sei o que esperar. A gente tem um carro competitivo e espera brigar pela vitória”, avalia Kanaan.
 
E o retorno da BMW marca, também, a volta do paranaense Augusto Farfus após seis edições longe das 24h de Le Mans. O paranaense de 34 anos é piloto oficial da marca da Baviera há onze anos. Ele participou desde o início do desenvolvimento da nova M8 GTE – carro que foi lançado como modelo de competição antes da série 8 de rua ser oficialmente apresentada ao mercado consumidor. 
 
“A responsabilidade é muito grande. O nosso objetivo é fazer um grande trabalho e o grid da LMGTE-PRO é sem dúvida o mais forte da história. São 17 carros e a disputa será intensa”, prevê o piloto. 
 
“No teste o carro se comportou muito bem, mas a pista muda muito. A aderência muda a cada momento, porque é uma pista de rua. Espero que o BoP seja ajustado para nos ajudar, mas nós já estamos preparados. Le Mans é uma prova dura e longa, então desde os treinos o carro tem que estar equilibrado para que a gente possa focar nos pontos principais e melhorar o equipamento ao máximo possível”, confia Augusto.
Augusto Farfus (Foto: BMW)
A edição das 24 Horas de Le Mans acontece neste sábado. A largada está marcada para as 10h (de Brasília). O GRANDE PRÊMIO acompanha a corrida mais importante do endurance durante o fim de semana.